segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Hoje, depois de anos, ouvi Dance of Days.
Recuperei algo de mim, perdido há muito tempo atrás.
Como fui parar onde parei?

Eis que bem a beira de um colapso, o meu eu de anos atrás vem e resgata-me. Estendo-me a mão.
Um viva às ironias da vida.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Não apertem os cintos.

O ser humano é alguém constantemente viajando no tempo, sem precisar de esforço algum para fazê-lo, bem como incapaz de não fazê-lo, independentemente da quantidade de esforços.



A nós, presos nessa viagem, cabem poucas mas significativas escolhas. É de nosso julgo para onde viraremos a cara, enquanto presos nesses bancos. A janela apresenta todo um universo– é uma viagem não-espacial, ora! -. Enquanto viajamos por essa coisa chamada tempo podemos descobrir tudo, sentir tudo, conhecer tudo e fazer tudo.
Infelizmente os seres humanos foram lenta e gradualmente convencendo uns aos outros a olhar apenas para o próprio colo, resumindo-se a brincar com as próprias mãos e o zíper do casaco.
A grande ironia é que os que limitam-se a olhar para baixo são a massa esmagadora; a qual está sempre disposta a esmagar. Vivemos sob a constante mira do coronelismo da babaquice.

Chamem-me então de anti-humanista, mas vos digo: quem olha para baixo é só peso morto no trem, pois os assentos são contados, bem como as provisões. E talvez – um dia! –de tanto se olhar para baixo alguém resolva fechar as janelas, inúteis que são.


É uma viagem onde podemos nos locomover livre e infinitamente. Basta percebê-lo e ter a coragem para transcender.
Para os que fazem isso Nietzsche tem um nome.


(E eu simplesmente não entendo como é tão normal ficar sentado no banco)

domingo, 29 de novembro de 2009

Faz tempo que não escrevo. Nem aqui, nem só pra salvar no computador. De certa forma me prometi há muito tempo atrás que nunca faria um blog diarinho. Desculpo-me então comigo e convosco desde já: ser auto-referente não é ser diarinho, bem como tudo que vem de mim tem algo de mim, em maior ou menor grau. Onde é o limite? E se falo de mudança, essa escolha não pode fazer parte dela?

Sobre mim e a colheita

Se eu disser que há meses me comprometi a mudar e nunca o fiz não vai ser mentira, bem como não vai ser a mais extada das verdades. Sou alguém em constante transição, o que não é nenhum mérito ou fato digno de nota, uma vez que qualquer coisa no universo é algo em constante transição. A minha já citada transição, entretanto, é racionalizada, intencional. Diz respeito aos meus(ao mesmo tempo fixos e titubeantes) desejos e objetivos. E foi por diversas vezes e razões proclastinada.
Quando impeço eu mesmo de crescer, percebo que tudo precisa de um pause antes do restart. Hábitos e conceitos precisam ser revistos. É hora de voltar a plantar ao invés de colher restos.
Tudos precisam evoluir constantemente(embora nem todos o façam).

Não sei dizer essa minha mudança de forma exata em poucas palavras, pois é algo abstrato e sutil que de alguma forma abrange tudo que me envolve e a forma com que me relaciono com o mundo.

Quero ser mais leve. Quero passar pelas coisas com mais fluidez, me deixar ferir e interferir menos.
Ao mesmo tempo, quero sentir mais. Correr atrás de outras formas de percepção.
Quero correr atrás. Sei muito bem tudo o que procuro, e apartir de hoje me empenho mais nessa busca.
Quero me libertar de tudo o que me prende ou ameaça me prender, só pra me re-afirmar perante a mim mesmo como eu mesmo.
Quero resgatar toda a maciez e leveza que fui deixando pelo caminho.
Quero medir tudo denovo. Não o suficiente pra a vida perder a magia, mas pra eu saber onde o que acredito não passa de saudosismo.
Quero prestar mais atenção nas coisas boas a minha volta, e tomar uma solução sobre as ruins.
Quero voltar a plantar, pois já não há tanto o que colher.

Não vou reler o post. Não sei se preciso ou quero(nem sei se gostaria) que leiam.
Isso tudo é mais um marco, de mim pra mim.
Apartir de agora sou um novo eu. Prazer.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009



E então outra vez eu acordo wonderin' about whys and hows, ou onde isso tudo irá desaguar...
Porque sempre desagua.
O rio gira, e corre, e faz ondulações, e segue seu fluxo; mas uma hora acha o ralo.
E qual ralo eu vou tomar?
Quando eu vou tomar?

Sou um rio correndo na contra mão. Encarando a nascente do vento.

Será o certo fazer parte de uma massa uniforme de práticas e opiniões?
Por que não?
Eles têm desculpas para seus erros e fracassos(quantas gerações já praticaram e aprimoraram esse cordeirismo!), as mesmas preocupações e motivações que todos na sua volta.
Todo mundo sabe que mais facil sentir dor quando alguém sente junto.

Não será o certo, afinal, ser assim como todo mundo?
Não será ao menos mais fácil?

O que estou fazendo da minha vida?
Me acho errado.
Mas logo me acho certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E certo.
E errado.
E então mudo o foco da questão: É certo eu me preocupar se sou certo ou errado?
Presumo que sim.
Ou no mínimo é normal, já que todos o fazem.
Mas julgando algo como certo por ser normal, não acabo fazendo parte da multidão?
Multidão que foi o berço dessa reflexão.

Doubts, doubts, doubts.
Mas, venha cá: será que alguém tem certeza de alguma coisa?
Dizem que sim, mostram nos seus sorrisos que sim, mostram nos seus peitos estufados que sim.
Mostram na firmeza com que dizem bobagens.
Na certeza e radicalidade com que são imbecis.
Mas eu sei que não.
Ninguém sabe nada.

Mas será que é certo não saber nada, só porque todos são assim?
Aliás, será que por não saber nada(e achar isso uma desculpa boa o suficiente para não procurar saber mais nada) não estou me tornando alguém na multidão?

Será que eu, aqui, pensando sob a multidão que são os outros(todos iguais) não sou apenas um na multidão do outro, que pensa sobre a sua própria multidão(mas é parte integrante da minha)?

O que eu significo no mundo dos outros?
O que eu significo no meu mundo?
Aliás, é o meu mundo alguma coisa?
Se nada é real, algo vale a preocupação?
Poupo-me para poupar o que?
Tenho medo porque não quero perder o que?
O que tenho, o que sou?
(Onde vou desaguar?)
Ter medo não é ser multidão?

Medo é multidão.
Medo.
Medo.
Medo.
Massa.

Multidão é medo.
Multidão é saber que é mais fácil sofrer junto.
Ora, todo mundo sabe que sentir dor em conjunto é muito mais fácil.



Eu sou o errado no mundo, me contou o mundo.
Eu sou a contra mão.
Onde vou desaguar?
Acho que acabarei bem.
Mas até onde acho isso de verdade, e até onde isso é auto-complacência?
E até onde multidão merece crédito em suas opiniões?
Até onde ela vale a minha preocupação?
Onde(descendo mais fundo na toca do coelho)a multidão vai desaguar?
O mundo que me critica está indo por água abaixo.
Direto pro ralo.
Será que eu não serei o certo no fim, e todo ele venha a cair?
Ou será ele o certo, e eu venha a desaguar primeiro?

Quem perde antes?
Quem?
Qual de nós dois sairá vitorioso desse freak show?
Façam suas apostas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Jonas nem sequer imaginava

Jonas Santos dobrava a esquina correndo. Um revólver descarregado na mão esquerda, um saco de dinheiro na mão direita, caixas de chicletes e cigarros embaixo dos braços. Tentava alcançar Marcos, seu parceiro, que corria quase meia quadra a frente e em velocidade ascendente. Entre seus esporádicos tropeços e olhadas para traz –tinha a impressão de que ninguém mais os seguia –gritava pedindo para o outro diminuir a velocidade. “Ta limpo, ta limpo!”
Algumas quadras à frente finalmente pararam. Jogados atrás do muro de uma casa abandonada já previamente calculada, ofegavam e tossiam, enquanto tentavam regular internamente a mistura de cansaço, medo, adrenalina e excitação. Marcos, sempre mais cauteloso, mirou Jonas, que parecia emocionalmente indiferente frente à proporção do acontecimento de dez minutos atrás. “Por que tu atirou?”
Jonas pronunciou um muxoxo indiferente, como se aquela pergunta não precisasse ser feita ou não merecesse ser respondida. Por quase um minuto eles ficaram sob um pesado silêncio, até que Marcos repete a pergunta. “Por que tu atirou?” Jonas, embora um pouco abalado –coisa do momento, ele tinha certeza –estava firme do que fizera. “O que tem?” Ele respondeu, sem nem olhar o companheiro. “Atirei, combinamos de atirar se precisasse. Tu estás aí com a grana e é isso que importa, não é?”
Marcos sabia que não havia necessidade de se atirar. O plano era apenas assaltar um armazém local –nada de novo –e sair com o dinheiro. Os revólveres faziam parte da pressão psicológica, as balas faziam parte da segurança; mas dali a dois assassinatos era um caminho longo. O dono da loja havia feito um movimento brusco – de fato suspeito e sem cautela, mas não necessariamente mal intencionado. –e Jonas, que olhava para outro lado do estabelecimento, subitamente virou-se e disparou. Duas balas num velho, que caiu sobre uma pilha de caixas de bombom, que caíram sobre o chão que já devagar manchava-se de sangue.
Ambos os assaltantes em alerta, um homem transforma-se em cadáver atrás do balcão e um outro de (chuta-se)trinta e cinco anos em completo pânico, com as mãos para cima, ao lado de um frigorífico. Marcos recuou de costas até a porta, xingando esporadicamente o morto(imaginando-o culpado de alguma forma), a outra vítima(por sua involuntária cumplicidade), seu parceiro(por sua atitude inesperada) e a situação em si. Jonas então, trêmulo, repetiu o movimento do amigo. Ambos, sem pronunciar palavra, perceberam que era hora de retirar-se. Marcos já ia saindo na frente –já tinha o dinheiro e algumas mercadorias –quando ouviu mais dois disparos. Virou-se para trás.
O outro freguês agora jazia também sob o frigorífico, comungando em carne morta e sangue com o gado ali exposto. Eles correram. Como para assustar alguém –quem? Quem restava? –Jonas deu um último tiro para cima.
“Aquele velho ia fazer alguma coisa. A gente ia cair. Tu queria cair, caralho?” Justificou-se Jonas, escorado no muro da velha casa abandonada. “Não” O outro apressou-se em responder “Mas não precisava matar. Talvez ele nem tivesse fazendo nada. –Pausou. -E tu ainda matou o outro, porra. A gente vai se enrascar com isso.” Jonas, para si mesmo, dizia-se superior a todas essas questões. Demorou para responder, e o fez enquanto acendia um dos cigarros que acabava de roubar. “Ninguém viu. A gente ta tranqüilo. Foda-se se eles morreram. O negócio é louco, o mundo é assim. Já era.”
Marcos xingou em vão por alguns minutos, sem resposta. Depois simplesmente desistiu e calou-se. Fitou o chão, acendeu um cigarro e assistiu a fumaça sumir junto da sua adrenalina. Sabia que não convenceria o outro. Sabia que era mais velho e mais experiente, e que também não era um grande exemplo de racionalização e sensatez, mas, sobretudo, sabia que Jonas tinha um passado forte e confuso que lhe encravara máximas muito profundamente na cabeça e que não seria ali que elas mudariam. Talvez não seria em dia algum.
Marcos sabia que esses dois homicídios já tomavam a forma de troféus na cabeça do jovem Jonas Santos. E Jonas Santos sabia que nem Santos era, pois dentre as várias rasteiras que a vida havia lhe dado, uma era ter sido jogado na rua por sua mãe verdadeira e ter sido adotado por uma família miserável. Fazia por si mesmo, arranjava dinheiro de alguma forma, e sempre dizia que a vida não é fácil pra ninguém.
Ao matar sentiu-se de alguma forma vingado do mundo. Sentiu-se completo, como se estivesse tomando de volta algo que lhe era de direito desde muito tempo atrás. Aquele revólver, aquelas balas encravadas na carne alheia, aquele dinheiro que agora era seu... isso tudo provava que ele realmente tinha poder, tinha voz num mundo que não lhe escutava.
Ao imaginar o armazém quebrado, com um cadáver jogado sob o balcão e outro sob o frigorífico, admitia agora: sentia orgulho! Provara sua atitude, sua coragem! Imaginava os outros assaltantes agora dirigindo-lhe olhares de respeito. Imaginava as mulheres dando-lhe maior atenção. Imaginava a palavra “Jonas” tomando uma proporção maior. Imaginava muito.
Porém nem sequer imaginava que o sangue que derramara no chão daquele armazém também era o seu sangue. Seu irmão biológico -que nunca havia conhecido –jazia agora ao lado do frigorífico do armazém, o palco no qual o garoto anunciara sua vitória sob a humanidade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Raízes

E eis que quando volto
vejo por todos os lados raízes.
E elas também vêem-me:
sem me compreender, querendo-me ainda raiz
e não flor, tronco, folha.

E vem-me elas receosas,
cães acuados questionando,
tomando respostas como pura reação
E não explicação.
Enfim decepcionadas.
Sem saber que decepcionar-se
É um negócio entre si
E si mesmo.

digo-vos então,
minhas raízes:
não sejam tão radicais
e nem tão enraizadas!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sobre a poesia

A poesia não é razão, não é certeza. É só a solidificação de um efêmero estado de espírito. A escultura de um sentimento- tênue feito uma brisa.
E o poeta, afinal –como o bêbado!-, é um descompromissado com tudo o que disse. Pois já se foi, já se disse e já se superou( pelo menos enquanto não é re-lido).